sexta-feira, 21 de março de 2014

AS CRÔNICAS DA PERIGOSA TURMA DO FUNDÃO DA SALA

EPISÓDIO I:
OS LADRÕES
DE LIVROS
I
É incrível como certas pessoas entram do nada em nossas vidas e nunca mais saem.
          Não é orgulho nenhum para mim mas esta é a história de como roubei o meu primeiro livro. E também a de como conheci os meus melhores amigos.
            Eu morava com meus tios Marco e Isadora no bairro do Benfica, em Fortaleza, desde os meus nove anos de idade. Muito mais por necessidade do que por vontade própria de meus pais. Estes eu só os via quando, em raros fins de semana, os visitava ou durante o período das férias do meio do ano. Não que morassem em cidades diferentes ou alguma coisa do tipo. Mas acontece que a principal razão de eu morar com meus tios tinha mais a ver com o fato destes morarem mais perto da minha escola. Esta estava localizada no centro da cidade. E do Benfica até lá, eu precisaria apenas andar por algumas poucas quadras. Isso eliminava a necessidade de se pagar passagem de ônibus. E os ônibus, assim como as escolas públicas em Fortaleza, nunca foram um modelo de qualidade do serviço oferecido pelo estado.
            Eu estudava no Colégio Tiradentes, que entre as escolas particulares de Fortaleza, estava em uma espécie de faixa intermediaria. Segundo uma lista nunca declarada de classificação das escolas, havia os colégios de classe A, como o Farias Brito, o Marista e o Sete de Setembro. Estes eram famosos pelo ensino excelente e também por altas mensalidades. Algo que a minha família nunca poderia arcar. Havia também as escolas intermediárias, como a minha e os colégios Tony e o Evolutivo. E as outras. Bem as outras nunca importavam realmente. Por sempre serem vistas como mais um número nas estatísticas das escolas do centro da cidade.
         E no Centro todas essas escolas estavam localizadas a poucas quadras uma das outras.
        Havia ainda uma rixa antiga, mas também nunca declarada, entre elas, principalmente se pertencessem à mesma categoria. E essa rixa tinha a ver com quantidade de alunos que cada uma dessas escolas colocasse dentro das universidades de Fortaleza.
       Os colégios de classe A, levaram uma larga vantagem porque conseguiam ter os seus ex-alunos nos principais cursos da Universidade Federal e também da Estadual. Ao passo que as demais tinham que se contentavam em conseguir que seus alunos entrassem nos cursos menos concorridos. E era comum depois dos períodos dos vestibulares a cidade ser invadida por outdoors desse ou daquele colégio. E esse exibicionismo das escolas classe A continua até hoje.
       No entanto em 1995, eu tinha treze anos de idade, estava na última série do primeiro grau, e pouco, muito pouco mesmo, importando-me com essas ou qualquer outra diferença entre as escolas. O que mudou depois quando quase fui estudar numa delas, mas isso é história para outra hora.
       Na escola em que eu estudava o que queria mesmo era tirar boas notas, passar de ano, entrar no nível médio e não criar problemas com ninguém. Porque ainda havia o fato de que eu estudava naquela escola particular graças a uma bolsa de estudo integral, conseguida com muito sacrifício por minha tia Isadora, através de um amigo sazonal, um conhecido seu que se tornara vereador da cidade de Fortaleza.
     Então, para mim era imprescindível tentar ao máximo possível andar na linha, sob o risco de perder a minha bolsa de estudo. O que para mim nunca fora tarefa difícil, já que minha timidez corroborava o bastante para que eu entrasse nos locais sem ser notado e saísse sem que ninguém sentisse a minha falta. Algo peculiar a quem leva uma vida normal.
     Na sala de aula eu me posicionava em uma das carteiras do meio para frente, e isso nunca fora por acaso.
     As primeiras carteiras eram sempre ocupadas pelos mais inteligentes ou pelos eternos bajuladores de professores.
       E como tinha aluno puxassaco na minha sala de aula.
      Dois deles eram os piores que já conheci na minha vida escolar. O Tomás, um magrelo brancoso, com cara de idiota, este ria das piadas mais bobas possíveis que alguns professores costumam dizer para aliviar um pouco a carga de matérias que passavam para os seus alunos, ou para parecerem engraçados. E a Maria, uma bela garota morena, mas que de tanto falar bobagem e ser uma espécie de papagaio da professora de inglês, com o tempo concluí que às vezes não há beleza que compense tanta babaquice.
    As duas últimas fileiras eram bem servidas pelos menos atentos, à famosa turma do fundão. De lá vinha a tão tradicional chuva de papel amassado rumo a bancada da frente. De onde eu ficava, bem no meio da sala, confesso que me divertia vendo aquilo tudo passando sobre a minha cabeça, parecia um agrupamento de pássaros voando para fugir do inverno. E quando acertavam as carteiras da frente pareciam bombas acertando os seus alvos. Nessas horas eu sempre agradecia aos céus por não ser um dos nerds da sala. E outra, podia até ser papel amassado, mas dependendo da força com que fosse lançado doía do mesmo jeito, ou até mais.
     Eu, no entanto, tinha pouca intimidade, na verdade nenhuma, com a turma lá de trás, só os conheciam de vista ou pelo nome. E isso por causa do livro diário dos professores. Sabia que a líder da turma do fundão era a Maria Eduarda, uma garota morena, cabelos curtos e com um largo sorriso. Esta namorava o George, um garoto franzino, cabelos longos e lisos, e que pela sua magreza era apelidado de Gafa. Havia ainda a Alana, a mais extrovertida da turma do fundão, sempre ao lado de sua inseparável amiga Juliana, e no intervalo da aula vivia agarrada com um outro membro do fundão, o Kardec. Este só falava de filmes e queria ser diretor de cinema. E havia ainda a Vera, uma loirinha que usava aparelho nos dentes, o Samuel, um cara caladão, branco, cabelos curtos, e havia ainda o Diego, um japinha folgado, óculos redondos e pequenos, e era, pelo que eu pude ver pelo menos umas cinco vezes, o que mais atirava papeis amassados na turma da frente.
    Nesse contexto, e mais ainda pela minha personalidade e maneira de ser naquela época, não era novidade eu pertencer à turma do meio, a dos que não querem chamar tanta atenção assim. E era ali que eu tinha régua e compasso.  Eu me sentava ao lado do Rogério, um garoto magro, moreno, inteligente e fã dos quadrinhos do Homem-Aranha e do Batman, ele tinha óculos com armação preta que mais parecia uma máscara. E por se sentar na carteira ao lado da minha, era com quem mais eu conversava, nunca fomos grandes amigos apesar de sermos visto quase sempre juntos. Ele tinha uma queda pela Vera, e também o maior medo de levar uma fora dela. Sei lá, acho que acreditava que garotas descoladas não costumam dá moral para caras quietos como ele, por isso ficava sempre na dele.  Só apreciando a paisagem, como ele dizia.
     Para mim o meio da sala era um bom lugar para se ficar. Calmo e discreto. Por estar bem próximo da turma do fundão eu via de onde partiam os mísseis de papel para atingir o alvo da frente. Eu ria das piadas deles sobre os professores. E também via o pessoal da frente, os bobões e os nerds e os que estavam ali por falta de opção de lugar para se sentar. E entre esses estava a Lisandra, uma garota morena, cabelos longos e lisos, inteligente, dona das melhores notas, sempre séria e cheia de personalidade.
     Todos nós tínhamos praticamente a mesma idade, o Diego e Tomás eram um ano mais velho do que eu. E a Maria e duas outras meninas da turma do meio tinham um a menos que eu.
            Essa era a minha turma da escola. Igual a todas as turmas que se tem noticias. E eu naquele meio me sentia nada além de um nome e um número na chamada. Mais um aluno para a estatística daquela escola. Não queria nada além de terminar mais uma serie e seguir para a próxima. Dentro de mim mesmo e comigo apenas. Eu via toda aquela manifestação cada um cumprindo o seu papel dentro de seus círculos. Eu via tudo aquilo e não conseguia me encaixar dentro de nenhum daqueles grupinhos. Não que eu não quisesse pertencer a um grupo. Só que até então não me via em nenhum deles. Então não era sacrifício algum aceitar sem ressalvas a minha condição de nome e número na chamada da professora. Era mais ou menos o que pensava naquela época.
            Mas eis que um dia a minha calma de aluno moita veio abaixo.
            E eu não planejei coisa alguma. 
        Eu, assim como uma boa parte da torcida do Flamengo odiava Português. Ou a maneira como essa matéria sempre fora ensinada.  Alguns dos professores que eu tive até então sempre fizeram terrorismo quanto a esta matéria. E pensar que eu ainda estava longe de conhecer às temíveis Física Quântica, Química Inorgânica e Cálculo 2. E que não saber o que nos espera é tão bom, torna a ignorância uma benção. 
       Mas, a primeira nota do primeiro bimestre viria de uma pesquisa em dupla, e a segunda de uma prova escrita.
    Desde o começo eu não gostei nada dessa ideia, e gostava menos ainda de minha professora de Português, dona Irene, uma senhora morena, baixinha, magra, que adorava vestidos azuis, e tinha uns cinquenta anos de idade, ou mais, longe ainda de se aposentar. E esse meu desgosto viera por conta de uma resposta idiota para uma pergunta cheia de opções, que uma vez ela me fizera no logo no primeiro dia de aula. E eu, aliás, acabei dando uma resposta mais idiota ainda. Não por maldade nem para fazer graça. Eu apenas confundi Abaporu, um quadro da Tarsila do Amaral, com tapuru, que alias eu nem sabia o que era.
      Resultado: do nada virei o queridinho da dona Irene.
      E isso era ruim para um tão aluno-moita quanto eu.
     No dia em que dona Irene passara tal trabalho, ela mesma escolhera as duplas conforme um critério seu. Misturou os alunos das mais distintas alas da sala de aula: os da frente com os meios, os do meio com os de trás. Tudo normal até aí. Alias isso não tinha nada de anormal, para uma turma de quarenta e quatro alunos era fácil fazer os pares.
      Mas quando chegou a minha vez, ela dera um sorrisinho ao apontar o meu parceiro. No começo não entendi o motivo do risinho. Mas quanto me virei para o aluno que seria meu par no trabalho a ficha caiu.
     Era um dos alunos que se sentavam na última fileira, bem no canto da sala. Segundo o que se dizia adorava pescar nas provas. E era o que menos participava de qualquer trabalho de equipe. Desde a quinta serie tinha a fama de escorão. Ou seja, os outros faziam tudo, ele era apenas corpo presente.
     Eu me virei para olhar para onde dona Irene apontara, e meu colega de sala apenas me sorriu e acenou formando com os dedos indicador e máximo da mão direita um V de vitória.
    Por que não fez logo um D de derrota, isso não vai dar certo, perfeito, tô lascado! Pensei.     E lá eu fui fazer par com um garoto mais alto do que eu pouca coisa, filho de descendente de japoneses, que conhecia apenas pelo nome: Diego Okada. Os colegas do fundão às vezes o chamava de cocada por conta do sobrenome.  O que eu sabia a mais dele era que estava na sala de aula, mas com a cabeça sempre nas nuvens. No oriente talvez, pensei.
            Depois da aula ele veio até onde eu estava para acertar os tais detalhes do trabalho.
            - E ai cara, tudo na paz? – cumprimentou ele.
            - Tudo – respondi sem querer responder.
            Nunca fui muito de conversa, mas como estava na lista negra da dona Irene, resolvi ser um lorde com ele.
            - Diego é teu nome, né? – perguntei.
           - Exato. E tu é o Ednelson?  – ele perguntou isso fazendo forças para não rir. Até que não se aguentou mais e caiu na risada. – Que nome hein, meu irmão – e continuou rindo.
            - Quer parar, meu chapa – eu disse isso irritado.
            - Desculpe mano, mas, dá não – e continuou rindo.
       Dois minutos depois ele parou de rir. Enxugou as lágrimas por conta do riso e conseguiu dizer alguma coisa.
         - Então Ednelson - conteve o riso ao pronuncia meu nome -, a gente se encontra aonde mesmo pra fazer o trabalho da tia lá? – A tia no caso era como ele se referia à professora Irene. 
        - Oh, sushi, fico feliz se tu me chamar de Ed. Pode ser? – eu falei em tom sério para ele.
        - OK, Ed aonde a gente se encontra para fazer o trabalho?
       - Se tu tiver livre esta tarde cara, a gente pode se vê lá no SESC. Lá tem uma biblioteca e a gente pode fazer a pesquisa lá – sugeri isso.
            - Tá bom então. Duas da tarde. Pode ser né?
            - Pode.
     Acertamos outros detalhes sobre o trabalho, em que lugar do SESC nós nos encontraríamos e tudo mais.
            E nada mais, além disso.
            Não tenho nem duvidas que a primeira impressão dele sobre mim, tinha a ver com esnobismo, arrogâncias e outras coisas do tipo.
            E isso foi proposital.
            Eu era muito fechado em mim mesmo. E muito chato com algumas pessoas.
           Também  não estava a fim de amigos como ele. Tanto que o meu propósito ao ser educado com ele era fazer o que tinha de fazer e depois passar por ele e apenas cumprimentar, como todos fazem com os antigos colegas de escola que passam tempos sem se ver e quando se reencontram, olham, acenam e como geralmente não se lembram do nome, deixam que partam de suas vidas como vieram, sem deixar tanta saudade assim.
            Depois da aula fui para casa tomei banho e almocei com minha tia. Meu tio estava no trabalho e só chegaria à noite. Depois do almoço descansei um pouco e por volta de uma e meia da tarde coloquei minha mochila nas costas e em seguida fui me encontrar com o Diego no prédio do SESC.
           Ele  estava sentando em um dos bancos do pátio. Mochila em cima das pernas e atento ao movimento local. Quando me viu abriu um largo sorriso como se fossemos amigos desde sempre.
            - E ai, meu irmão, tudo na paz? – ele perguntou.
            - Tudo. Vamos lá?   
         Eu queria fazer logo o trabalho, me livrar do Diego e depois voltar para casa. A pesquisa era sobre um certo Fernando Henrique Cardoso. Pesquisar sua vida e sua historia, depois tínhamos que fazer um relatório a respeito dele.
            - Isso é trabalho de Historia ou de Português? – perguntou-me o Diego.
         - Quando uma pessoa está no poder - eu disse -, a sua vida e sua história rendem motivos para qualquer trabalho de equipe. Inclusive os mais idiotas.
            Diego apenas riu e bateu de leve no meu ombro direito. Eu sempre odiei quem me tocasse. Ele percebeu e deu sorrisinho discreto. Meio que pedindo desculpas. Depois bateu de novo.

II           
O prédio do SESC ficava no centro da cidade, a umas poucas quadras da nossa escola. Tinha um ginásio, duas piscinas e um monte de gente indo e vindo. Antes de irmos fazer o trabalho o Diego sugeriu que ficássemos um pedaço na arquibancada do ginásio, olhando a aula de natação em uma das piscinas. Eu não gostei muito da ideia, mas o Diego foi logo se dirigindo para o local e tive que ir atrás dele. Não tardou e sem querer eu me vi o imitando: assoviando para as meninas, tirando um sarro com a maneira com que caiam na água. Com algumas senhoras que faziam hidroginástica éramos bem mais educado. Ele acenava para elas e dizia palavras como: “Boa, tia, valeu, tá indo bem, continua”. E elas para ele apenas sorriam.
            Realmente o rapaz tinha um certo carisma. Era preciso apenas eu parar de ser chato, como estava sendo, para perceber isso. 
       Depois subimos para o terceiro andar, onde ficava a biblioteca. Não demorou e achamos o que queríamos. Havia um monte de revistas falando sobre a vida do Fernando Henrique, copiamos descaradamente parágrafos inteiros e antes das quatro da tarde já tínhamos pronto o rascunho de um belo relatório de trinta linhas, algo bem Ctrl-C  Ctrl-V mesmo.
       Já estávamos quase prontos para irmos embora quando o Diego me veio com uma proposta bem fora do comum.   
        - Cara - ele foi me dizendo -, tu conhece aquela moreninha chamada Lisandra da nossa sala, né?
     - Claro, a garota da primeira fila - respondi, enquanto copiava mais alguns trechos da revista Veja sobre o Fernando Henrique. Para complementar o texto final se preciso fosse.
         - Então, tu sabe que a guria é uma gata, né?
         - Sei, e daí? - respondi sem tirar os olhos da revista.
         - Pois bem, cara, ela é muito gata, né?
         - Ham-ram! – disse sem parar de copiar o texto.
         - Pois então, cara, tu podia me ajudar numa parada?
         - Parada? Vai pegar ônibus?
         - Idiota. É força de expressão.
         - Sério? Diz aí qual? - perguntei sem muito interesse.
         Ele se animou e foi logo me passando o seu plano.
      - Seguinte  cara, enquanto tu tava copiando aí o texto, eu estava passeando pelas estantes, vi um livro que a Lisandra vive com ele debaixo do braço.
            - E daí? A menina gosta de ler - respondi, sem dar muita atenção a ele.
            - Cara, presta a atenção - ele me fez olhar pra ele e deu um sorrisinho maligno. Não foi muito fácil por conta de seus olhas puxadinhos, bem nipônico. Logo percebi que ali tinha coisa. 
            E não era nada bom.
          - Pois bem, meu chapa é o seguinte – ele começou a me passar o seu plano -, cara, presta a atenção, é o seguinte, eu vou fazer a secretária da biblioteca umas perguntas pra lá de bestas e tu vai até a estante e mete dentro da calça o livro que eu vou te indicar, pode ser?
            Eu olhei pra ele espantado> Ele só sorria como se eu fosse realizar a coisa mais fácil do mundo.
            - Cara - eu disse baixinho -, tu é doido ou o que, e se a gente for pego?
          - Mano, é moleza - ele começou a falar, bem sério -, presta só atenção, olha bem, aqui não tem câmeras de segurança, essa biblioteca mais parece um salão de festas, todos estão ligados nas suas leituras, a bibliotecária atente a duas pessoas ao mesmo tempo, só tem ela, além do que tem uma porrada de livros aqui e um a menos não vai fazer falta. Então pode ser ou tá difícil?
        Ele ficou calado e esperou minha resposta. Coçando o queixo e a um projeto de barba que ali discretamente se instalava.
     Pensei bem e percebi que até que ele tinha razão, nós estávamos sentados a meio caminho do balcão da bibliotecária. Ele tinha reparado bem no movimento da biblioteca. 
         Olhei para ele e perguntei:
         - E aí o que vai acontecer se a gente for pego?
       - Ora, meu chapa, somos menores de idade, lembra? Lembra que este país protege os infratores e delinquentes juvenis? O máximo que podem fazer é nunca mais deixarem a gente pisar aqui, o que ia ser uma pena, aquelas gatinhas de biquíni lá na piscina são o maior tesão.
          Ele riu porque parecia que essa justificativa era mais do que suficiente.
         - Cara, isso não vai dar certo – eu insisti na inútil tentativa de fazer com que ele tirasse essa ideia da cabeça.
      - Ed, meu bom, deixa de ser mole, cara. Vai ser a maior moleza, tenho certeza – ele disse isso e juntou as duas mãos como se tivesse rezando. – Vá lá maninho, faça isso pelo seu mais novo amigo.
      Depois se levantou e se dirigiu até a estante onde estava o tal livro. De lá ele me chamou. Discretamente eu fui até lá. Confesso que me sentia sendo filmado por mais de dez mil câmeras. Eu estava assuntado com aquilo tudo. No entanto cheguei até onde ele estava. Ele me mostrou o tal livro que tanto queria que eu colocasse dentro da minha calça. Depois voltamos para onde estávamos antes e esperamos o instante em que bibliotecária estivesse atendendo a mais de uma pessoa. 
     Chegou o momento e ele me olhou, sorriu e foi até o balcão dela.
     Eu estava morrendo de medo daquela situação, quase não me levantei da cadeira, ele me olhou lá do balcão, fechando a cara e me dizendo com o olhar: “vai, lesado!”. Quase implorando.
    Criei coragem e fui.
    Mas parecia que as minhas pernas pesavam duas toneladas. Ou mais.
    Passei pelo livro umas cinco vezes e nada de pegá-lo.
   O Diego tinha uma boa lábia, puxava assunto atrás de assunto com a bibliotecária, de vez em quando olhava para mim discretamente. Nem precisei advinha o que ele queria me dizer. Então criei coragem, tirei o livro da prateleira e meti dentro da minha calça, encolhendo a barriga para não aparecer o volume por baixo da camisa e voltei para o meu lugar.
   O Diego olhou para mim, acenei com a cabeça que tudo certo, ele sorriu, deu adeus a bibliotecária e volto para onde estávamos.
   Em total silêncio e mais do que depressa arrumamos nossas coisas, jogamos os cadernos dentro das nossas mochilas e saímos dali. Com aquele friozinho na barriga instalado e com a sensação de que todo mundo ao redor nos observava e sabia o que tínhamos feito. Nesse clima tenso fomos andando em total silêncio para fora do prédio do SESC. Para aliviar a tensão paramos na esquina do SESC e compramos duas latinhas de coca-cola. Eu continuava com um medo danado de ser descoberto. O Diego é que mantinha a sua total despreocupação com tudo, ria e ria e não parava de rir. E só quando chegamos à praça que fica próxima ao SESC, ao lado do Mercado São Sebastião, abrimos as latinhas de coca-cola.             Eu tomei a metade da minha em um gole apenas. O Diego é que parecia apreciar cada gota. Uns cinco minutos depois quando a calma no meu peito se instalou é que eu me senti mais aliviado e tirei o livro de dentro da calça.
            - Era esse mesmo - disse ele, olhando pra mim e sorrindo, e completou -, calma, Ed, o primeiro roubo a gente nunca esquece, relaxa, meu chapa. Relaxa.
            - Primeiro e último - respondi um tanto revoltado -, não haverá outro.
            - Relaxa, meu chapa, relaxa.
            - Como se isso fosse fácil para mim.
         Ficamos na praça mais uns dez minutos depois seguimos para nossas casas. Ele morava a cinco quadras da minha casa. No caminho rimos do que fizemos na biblioteca como se tivéssemos roubado um banco. E eu perguntei a ele:
            - Pronto cara, tai o livro, e agora, tu vai fazer o que? Vai ler ou o que?
           - Eu não, tu vai me quebrar mais esse galho, meu chapa, tu ler e depois me conta a história e o que for de mais importante.
            - Como é que é, meu chapa!? - perguntei isso a ele um bocado irritado. - Eu roubei um livro e ainda vou ter que ler, ah, vai se danar meu chapa!
            E lá se veio ele com o seguinte argumento:
          - Cara, tu tem cara de nerd, não é mais tem, e eu não tenho saco de ler nem nome de ônibus. Cara, a Lisandra é metida a intelectual e esse livro deve ter algo legal para ela andar pra cima e pra baixo com ele. Mano, se tu não me ajudar nessa, não vou ter assunto pra conversar com ela. Me ajuda, irmão! – disse essas últimas palavras quase que me implorando. 
            - E eu com isso, meu chapa? - perguntei.
          – Não sei se tu se lembra, mas a gente tá se conhecendo agora - disse ele -, mal a gente se conheceu e tu vai perder a chance de ter um amigo gente fina como eu?
            Sinceramente não sabia se dava um tapa na cara dele ou se ria dessa mesma cara-de-pau que ele tinha. Só sei que fui logo dizendo:
            - Tá bom, tá bom, tá bom, meu chapa, eu leio essa droga! 
            Ele veio e me deu um abraço daqueles. E eu lhe disse:
            - Sai fora, meu chapa!
            Depois a gente caiu novamente no riso.
         O resto do caminho até nossas casas foi tranquilo. A gente foi falando coisas de nossas vidas um para o outro. E antes de nos separamos percebi que aquele cara era gente boa, meio preguiçoso, é claro, mas, muito gente boa.
            Cheguei a minha casa e fui direto pro meu quarto.
            Era cedo ainda, por volta das cinco e meia da tarde. Coloquei no som o cd Dookie, do Green Day que eu tinha ganhado de aniversario de um grande amigo, fechei meus olhos e comecei a rir daquilo tudo que acontecera naquela tarde. E pensando o que um cara não faz por causa de um amigo.
E principalmente por uma garota.

III
O tal livro em questão era o Pequeno Príncipe, do escritor francês Saint-Exupéry. Quando o Diego me mostrou o livro na estante, eu jurava que era um livro infantil porque tinha alguns desenhos dentro dele e, quando eu comentei com ele sobre o livro, fez uma cara de decepcionado, não acreditava muito que uma garota como a Lisandra, tão inteligente e tudo mais, vivia para cima e para baixo com um livro infantil. Nem mesmo depois, quando lhe disse que não era bem assim, que o livro falava de amizade, descobertas e da importância de se cativar as pessoas, ele se mostrou menos decepcionado. E ainda veio com a seguinte:
            - Peraí meu, tu quer eu leve a sério um livro infantil que fala de viagem pelo espaço, planetas com árvores enormes e sei lá mais o que.
            Não foi difícil para eu perceber que realmente não adiantava defender o livro, ele nunca o entenderia.   
            De qualquer forma ele já tinha argumentos para falar com a Lisandra. E na manhã seguinte criou coragem e puxou assunto com ela, e uns dois dias depois, quando passei bem perto deles, percebi que ele repetia para ela comentários meus sobre o livro.
          Ele  me olhou, acenou, sorriu e continuou a conversa.
Eu fui pra cantina da escola, tomar uma coca-cola e comer um sanduíche, rindo comigo mesmo da cara de intelectual-safado que o Diego fazia, como se lesse um livro por dia. O Rogério se sentou ao meu lado e comentou o quanto eu estava me envolvendo com o novo amigo. Nem dei importância ao comentário dele. Terminei meu lanche e fui para a sala de aula.
            A partir daí ficamos eu e o Diego nos aproximamos mais um do outro. E mais ainda depois do oito e meio que conseguimos no relatório, que, aliás, eu fiz sozinho. E apesar de ser da turma do meio o Diego me arrastou para a turma do fundão.
         Meu colega Rogério não gostou muito porque perdera o vizinho de carteira. Eu percebi isso e dei um jeito de contornar a situação. Eu lhe disse que ia apenas dá uma voltinha pelo lado escuro da lua e depois voltava. Ele riu e pediu para eu não me empolgar muito porque tudo é passageiro. Eu ri e pensei que ele devia ter tirado tal citação de algum quadrinho que tenha lido. Mas sabia que fazia sentido.
            Dai pra frente eu e o Diego viramos parceiros em diversas badernas. Creio que ele tinha encontrado em mim um colega que apesar da cara de lesado, era um bocado sonso e tinha coragem de aprontar. Ele me disse que a turma do fundão era metida a estilosa, diferente, revoltada, mas faltava um pouco mais de senso de humor. Eu percebi isso depois ouvindo os projetos de vida deles. E para mostrar que eu realmente estava na turma do fundão um dia sem perceber comecei a praticar arremesso de bolinhas de papel amassado na turma da frente. Por não ter pratica alguma no assunto acabei acertando o Rogério. Ele olhou para traz, fez para mim uma cara de decepção e depois voltou a olhar para frente. Sinceramente não houve como não me senti mal com aquilo tudo.
            Depois da aula fui atrás dele e perdi desculpas. Ele aceitou e depois fomos andando para nossas casas.
            Nos dias seguintes, nos intervalos da aula, lá estava eu infiltrado na turma do fundão. Observando o comportamento dos meus colegas.
A Maria Eduarda, o Gafa e o Kardec só falavam de cinema. Viviam discutindo qual eram os melhores filmes do Quentin Tarantino, do Wood Allen, do Steven Spilberg e de outros diretores que eu nem sabia que existia. Mas como já era fã de cinema e tinha o habito de ficar na televisão até altas horas da noite - dormia no sofá da sala de casa às vezes, acordava com uma bronca do meu tio por ter deixado a televisão ligada à noite inteira. Eu tinha assunto de sobra e logo entrei para o time dos que defendiam os filmes do Tarantino.
       A Alana e a Juliana eram engraçadas. As duas passavam boa parte do intervalo falando de teatro, dos seus namorados e de como pensavam em ganhar dinheiro no futuro para irem morar só.
     O Samuel mais ouvia do que falava. Ele era quem trazia os cigarros para os colegas fumarem no intervalo da aula. A primeira vez que nos falamos realmente ele me jogou um cigarro, enquanto acendia um para ele. Depois me perguntou para qual time eu torcia. E como eu disse que era para o São Paulo ele sorriu e disse que tinha finalmente achado alguém de bom gosto. Eu concordei enquanto o resto da turma nos deu uma sonora vaia.
            Era realmente uma turminha bacana.
      O Rogério geralmente passava quando eu estava com a turma do fundão, me cumprimentava com a cabeça e seguia para a cantina.  Eu o cumprimentava de volta e continuava a conversa de onde tinha parado.
        O semestre estava quase chegando ao final e eu percebia que tinha perdido um bocado da minha timidez. E isso por incrível que pareça não me assustava. Quando eu andava com a turma do fundão o tempo parecia correr devagar e tudo parecia mais divertido.
      Era como se ao andar com eles tivesse perdido a minha inocência. Eu me sentia parte daquele grupinho. Gostava de ouvi as suas bobagens, de dizer as minhas bobagens. E de rir de tudo isso. E mais, sempre que o Diego queria aprontar alguma e ninguém tinha coragem de colocar qualquer plano dele em pratica, eu estava lá para ajudá-lo.
            E o plano dava certo.
            Sinceramente aquilo estava me divertindo.
            E nós aprontamos algumas naquele semestre e no resto do ano letivo.
Sendo a mais famosa à vez em que jogamos três ratinhos no banheiro das meninas, durante a aula de Educação Física, e esperamos no pátio da escola que saíssem correndo só de calcinha e sutiã, ou nuas.  Tivemos um trabalho danado para capturar esses ratinhos. Eu claro mais do que o Diego. Levei uma semana para capturar os tais bichinhos e no dia da aula de Educação física eu os levei na minha mochila, dentro de uma caixa de chocolate.
Na primeira oportunidade que tivemos eu e o Diego demos um jeito de sair da aula, inventei que estava com dor de barriga e o Diego disse que precisava tomar uma água porque estava cansado de tanto correr. Naquele dia as meninas estavam jogando handebol na quadra enquanto que os meninos corriam ao redor desta mesma quadra. Inventamos nossas desculpas e fomos por nosso plano em pratica. O mais difícil era  entrar no banheiro das meninas sem sermos notados.
Apenas o Rogério, que tinha saindo da aula para ir ao banheiro, foi quem me viu com a caixa de chocolate entrando no banheiro das meninas. Eu tive a certeza de que ele contaria alguma coisa ao professor de Educação Física depois. Mas naquele instante ele apenas me cumprimentou com a cabeça e foi correr ao redor da quadra de futsal.
            O fato é que conseguimos colocar nosso plano em pratica.
          Depois da aula foi um festival de desfiles de meninas correndo pela quadra do colégio de sutiãs e calcinhas ou enroladas em toalhas.
Mas para tristeza nossa nenhuma estava nua.
          O bom foi saber que o Rogério nada contou.  
        Descobrimos isto porque nunca descobriram que fomos nós que colocamos os ratos no banheiro das meninas. Mas para que não houvesse duvida nenhuma, na aula seguinte de Educação Física, eu e o Diego colocamos no banheiro dos homens um saco com várias baratas. E fomos descaradamente os primeiros a correr pelo pátio da escola de cuecas com medo das baratas. E para completar também fomos os primeiros a reclamar com a direção da escola sobre a limpeza da mesma. Depois disso eu sinceramente já não sabia se ria ou se comprava um litro de óleo de peroba para polir as nossas caras de pau.
            Outra vez foi pouco antes do inicio de uma das aulas, na sala de aula mesmo, quando eu e o Diego chegamos pouco antes do inicio da aula, e sorrateiramente colocamos uma especie de bomba relógio debaixo da carteira de um dos queridinhos da professora de Português. O tal artefato caseiro consistia de uma uma bombinha rasga-lata grudada num chiquete, usado claro. É chamada de bomba relógio porque demora uns poucos minutos para estourar. Tempo suficiente de se preparada e sair para fora da sala de aula, para evitar suspeitas. Não tardou e ouvimos um estouro. Não houve dano material algum, só o susto. Claro que tanto eu como o Diego estávamos longe da cena do crime na hora do ocorrido. Um na cantina e o outro no banheiro. Neste dia o coordenador da escola veio até a nossa sala e como ninguém se ofereceu para assumir a culpa pelo atentado, ficamos todos na sala de aula durante o intervalo, sem direito a ir ao banheiro. E nosso turma também perdeu um passeio que faria a um dos pontos turísticos da cidade. 
       O curioso nisso tudo é que a minha cara de lesado e a cara de anjo do Diego sempre nos distanciavam de qualquer suspeita. E isso era o divertido da coisa toda.
         Tudo seguia normal com meus novos amigos. Mas faltava ainda algo que eu precisava resolver. Era uma questão de honra. 
          Trazer o Rogério para a turminha do fundão.
Um dia ele ia passando rumo a cantina e eu o chamei para ficar ali comigo. Ele aceitou, como se esperasse por aquilo há algum tempo. Ele era mais tímido do que eu era e demorou a se enturmar. Mas como tanto o Gafa quanto o Kardec eram fãs de quadrinhos e o Rogério economizava no dinheiro do lanche para comprar alguns exemplares, logo ele teve assunto para conversar com outra pessoa além de mim. A Alana brincava com os óculos dele, dizia que ele parecia um professor. O Rogério me surpreendeu ao dizer que era o seu disfarce e que no fundo era só charme.
Realmente ninguém conhece ninguém.
Passada a fase inicial, a de se adaptar a um novo grupo, não tradou e ele veio se sentar ao meu lado, na penúltima fileira da turma do fundão. Não a toa ao lado da Vera, para ele a coisa mais bonita do mundo.
        O semestre seguia e diversas vezes eu e o Diego voltamos à biblioteca do SESC. E outros livros foram roubados. Era a nossa sessão da tarde, ou pura falta do que fazer. O esquema era o mesmo, mas trocávamos de lugar às vezes.
            Eu ficava puxando assunto com a bibliotecária e o Diego metia um livro dentro das calças. Levamos uma vez o Rogério, mas este se tremia todo. O Diego quase chorava de tanto rir com o jeito desajeitado do Rogério tentando colocar um livro dentro das calças. E mais ainda quando este deixou cair um livro no chão por duas vezes. O que chamou a atenção da bibliotecária para si. Ele pediu desculpas e devolveu o livro a estante. Depois voltou todo envergonhado para se sentar ao nosso lado.
O interessante era que, quem realmente começava a ter interesse pelos livros era eu, o Diego gostava mesmo era do perigo. Teve uma vez que desfalcamos da biblioteca oito livros, foi o nosso recorde.
E esta foi  uma operação interessante. 
O Diego ia até a estante, pegava um livro, colocava dentro das calças, volta para onde estávamos, me passava o livro por baixo da mesa e eu colocava na minha mochila. Depois trocávamos de lugar e eu fazia o fruto. 
       Em contrapartida a minha biblioteca particular estava aumentando em número e em qualidade. Eu já tinha exemplares de Vidas Secas, do Graciliano Ramos, Contos do Allan Poe e do Machado de Assis, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias do Julio Verne, Romeu e Julieta do Shakespeare, além de uns quadrinhos, um livro de meditação, esse o Diego gostou da capa, por isso levou para casa dele, depois me devolveu, achou muito chato e cansativo. Fora esse livro o Diego nunca lera nenhum dos livros que roubamos, esse trabalho era meu. A todos eu os lia e depois comentava com o Diego. Este me ouvia atentamente e depois fazia pose de intelectual com a Lisandra ou com alguma outra garota. Ele me dizia que precisava mais do que seus lindos olhos puxados para ganhar as meninas mais metidas a besta, as outras era só chegar, dar um queixo qualquer e depois beijar e abraçar.
          Eu o ajudava. E ele estava se dando bem.
E eu só olhando.
Mas era realmente divertido ouvi, mesmo que de longe, seus comentários sobre os livros. “Vidas Secas, do Graciliano Ramos, é o máximo, você precisa ler, viaja pela seca e pelo interior dos personagens”. Dizia ele para a Lisandra
            Ou então:
            - Ah! Lisandra, é de morrer de medo o conto do gato, do Allan Poe.
            Mas hilário mesmo era ouvi trechos de Romeu e Julieta, alguns que ele inventava na hora, para conquistar alguma outra garota.
          E apesar de fazer o trabalho duro, ler e interpretar a leitura, de alguma maneira eu me divertia. Fosse lendo, ou apenas observando as aventuras amorosa do Diego Okada. 
         Mas se para o Diego os livro eram caminhos para as garotas, para mim era uma completa descoberta. Realmente eu estava gostando de ter sempre um livro por perto. O Velho e Mar e Moby Dick, estavam mudando meu modo de ver as coisas. Acabaram até me inspiravam os primeiros versos que fiz. E claro, ficavam bonitos enfeitando a estante no meu quarto.   
            Realmente eu e o Diego nos tornamos bons amigos. De vez em quando ele passava pela minha casa, íamos para o meu quarto e passávamos um bom tempo ouvindo meus dois únicos CDs: um do Green Day e outro do R.E.M. Meu tio odiava a presença de outro estranho dentro da casa dele, além de mim, claro, mas para parecer educado nada dizia. Reclamava depois com minha tia, e esta o convencia que eu não tinha amigos e sei lá mais o que. Ele então abaixava a guarda e tudo ficava por isso mesmo.
         Outras vezes nós íamos para a casa do Diego, nos traçávamos no quarto dele e passávamos toda a tarde ouvindo música, fumando cigarro, bebendo saquê ou vodca, falando das meninas do colégio, vendo umas revistas playboys e uns filmes pornôs. 
            Uma vez o Diego levou os meninos da turma do fundão para a casa dele. Foi uma bagunça só. Bebida, cigarros, filmes e música. Foi uma tarde bem animada.
           Mas todas às vezes que fui a casa do Diego o que eu gostava mesmo era de ficar secando a irmã dele, que era muito parecida com ele. Adorava olhar para a brancura do seu rosto, seus cabelos lisos caindo sobre os ombros, parecia até uma bonequinha de porcelana. Ela, no entanto, nem me olhava. Era uns dois anos mais velha que eu e portanto não tinha tempo para perder com um pirralho como eu.
Ainda assim eu insistia em olhar para ela, encarando mesmo, apesar de toda a minha timidez. Que graças a turma do fundão estava ficando para traz.
            O Diego via isso tudo, bolava de rir e sempre me dizia:
            - Desiste cara, ela só gosta de carinha com grana e que estude no Sete ou no Farias.
            Eu ouvia isso e não lhe dava à mínima.
            Quando não estávamos na casa dele ou na minha, a gente saia por aí, comprávamos bebida e cigarros - curioso como é fácil comprar essas coisas quando se tem dinheiro; íamos ver o pôr-do-sol na praia e depois voltávamos para nossas casas.
         Uma vez a minha tia achou cigarros na minha cama e perguntou se eu também andava fumando outras coisas. Eu disse que não, ela não acreditou muito, mas me deixou em paz. Com o Diego foi bem diferente, o pai dele não gostou nada de ter achado cigarros nas coisas dele e pensou que eu fosse o incentivador desse novo vicio de seu filho. Mas também nada fez.
        Uma vez perdida, a gente ficou discutindo a respeito disso e riu pelo fato dos outros nunca colocarem a culpa dos nossos vícios em nós mesmo. “Somos ainda crianças para eles”, ele me disse isso caindo no riso.
          Outras vezes ficávamos perambulando mesmo por aí, sem rumo. A cidade ainda não era tão violenta quanto hoje. Eu levava um skate emprestado, ele seguia na sua bicicleta. Às vezes eu segurava na garupa e ele me puxava ladeira acima. Íamos para toda e qualquer parte que se pudesse ir no período da tarde. Para o aeroporto ou para a rodoviária ver quem chegava ou partia. Para o Parque das Crianças, no centro da cidade. Para o Passeio Público, então reduto de algumas putas e garotas de programa, estas aliás, viviam cantando o Diego prometendo fazer coisas maneiras com ele, colocá-lo no colo e lhe dar carinho por causa da cara de bebê que ele tinha. A gente ria e depois descia para a praia.
          Sobre tudo a gente falava. Ele, mais das meninas que pegava por conta do seu charme e de sua inteligência adquirida com os livros que “lia”. E eu, eu mais ria do que falava. Ainda assim deixei escapar meu sonho de montar uma banda, ser engenheiro e ter uma moto igual a do Bruce Willis no filme Tempo de Violência, que a gente tinha assistido uma vez na casa dele. Ele só queria entrar para o Exército, ganhar dinheiro e conhecer o país, e claro, casar com a Lisandra, que ele achava a garota mais bonita do colégio. Eu nem perguntava a ele sobre as outras meninas que vivia cantando. Na época eu ainda não me interessava por ninguém, apesar de concordar com ele que a Lisandra era uma gata.   

IV
As férias do meio do ano estavam se aproximavam, e como de costume passaria os meses de julho e agosto na casa de meus pais. O Diego teria mais sorte, iria para o interior do estado, na casa dos tios dele na serra de Guaramiranga.  
            Mas antes que essas férias chegassem aprontamos uma vez mais.
            Nós não éramos nem de longe os queridinhos da professora de Português. Então não foram surpresas as notas baixas nas primeiras provas do segundo bimestre. E como a professora nos queria por perto, nos deu um último trabalho de equipe, para recuperamos nossas notas ruins, senão correríamos o risco de perdemos o ano, mesmo este estando ainda no meio.  
           Mais uma vez voltamos à biblioteca e preparamos um novo artigo, desta vez  sobre a guerra civil entre clãs rivais na Somália. Tudo seria normal, nem pensei em roubar livros, queria mesmo era me livrar daquela tarefa, o ruim foi ter que ouvir da bibliotecária que alguns livros estavam sumindo das estantes. Eu senti certo remorso por ter uma boa parcela de culpa nesse comentário. 
         Mas o Diego era mais canalha e não tinha sensibilidade nenhuma. Ele revoltou-se e disse que aquilo era terrível, que merecia cadeia quem fazia isso, que aquilo não podia acontecer e sei lá mais o que. Quem não te conhece que te compre, pensei no comentário que meu tio fazia sempre a meu respeito. Eu via aquela cena e sentia imensa vontade de cair no riso. E essa vontade foi além da estratosfera quando o Diego teve a cara-de-pau de se oferecer para vigiar as estantes e pegar quem estivesse roubando livros daquela biblioteca. Quase tive uma crise incontrolável de riso. Realmente, quem não te conhece que te compre. E não espere devolução.
         Entregamos a professora um artigo mais Ctrl-C Ctrl-V que o trabalho anterior. Depois armamos uma operação de guerra para furar os quatro pneus do fusquinha verde-abacate-maduro da professora. Como o Rogério estava completamente integrado a turma do fundão eu o chamei para participar deste evento.
Pensei que ele recusaria no entanto foi o que mais trabalhou na missão, desde vigiar o estacionamento para ver se algum dos porteiros nos via, até furar os dois últimos pneus do fusquinha. Ele se sentia como se estivesse dentro de um de seus quadrinhos. O Diego olhava para ele e bolava de rir. Eu me controlava para não fazer o mesmo.
A operação foi um sucesso, e só não furamos o estepe porque não conseguimos abrir o porta-malas do carro. Carro não, que fusca não é carro, é meio de transporte segundo o Diego. 
      Por sorte do destino, e mais ainda por não sermos os únicos que estávamos recuperando notas que não eram tão baixas assim, saímos mais uma vez ilesos e acima de qualquer suspeita, novamente mais pela cara de anjo do Diego do que a minha.
          No último dia de aula antes das férias de meio de ano fomos todos comer pizza com coca-cola em pleno meio-dia. Rimos e contamos as piadas mais idiotas sobre o semestre que tivemos. O Kardec levou sua câmera e tirou várias fotos. A Alana levou seu violão e tocou Legião Urbana, Raul Seixas e Nirvana. O resto da turma fez coro para as canções tocadas. 
        Foi nesse dia que descobrir que o Rogério sabia tocar violão e tinha planos de comprar um baixo. E também tivemos uma longa conversa sobre gostos musicais. Depois ele me deixou falando sozinho e foi bater um papo com a Vera. 
      Vi aquilo, olhei para o Diego e rir. Ele veio até mim e disse no meu ouvido: “A borboleta tá saindo do casulo hein, se liga, vai perder o amigo”. Eu ri e depois ele voltou para perto da Lisandra. E dela não desgrudou mais. Ele me disse depois que era para não se esquecer do cheiro dela quando estivesse no interior. 
        E Antes de sermos todos expulsos da pizzaria por fazermos barulho demais, a Lisandra veio falar comigo.
Ela me surpreendeu ao dizer que sabia que era eu quem lia e interpretava os livros para o Diego. E que adorava a maneira como ele fazia pose de intelectual para impressioná-lo. Eu olhei para o Diego e dei um sorriso. Ele me cumprimentou com um sorriso amarelo. Como se soubesse que algo estava acontecendo. Eu fiz um gesto com a cabeça para que ele não se preocupasse e então eu disse para a Lisandra.
            - É para isso também que serve os amigos.
          Ela me sorriu e depois fomos todos embora da pizzaria. Procurar um local onde pudéssemos nos sentar, conversar e ouvir uma musica legal. 
            De preferência uma tocada por um de nós mesmo.



Próximo episódio:
A MENINA QUE MORDIA QUANDO BEIJAVA


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